Amar um filme
Do interior do México, há um filme sobre o qual tentei escrever diversas vezes. Em todas, fracassei. E o fracasso não termina aí. Mais que a ausência da crítica, incomoda ao crítico não saber justificar essa ausência. Seria o melhor filme daquele diretor? Não. Seria uma obra prima absoluta, cujo criador deveria entregá-la, sem rodeios, ao patrimônio do cinema, como um exemplo daquilo que há de mais grandioso nessa arte? Certamente, não é o caso.
Quem dirá, portanto, que o gosto deve acompanhar a importância das obras? Valentin de las Sierras, de Bruce Baillie, é um ótimo filme – entre tantos outros igualmente bem sucedidos no cinema de vanguarda. Não é um paradigma, nem um marco incontestável para o cinema; eu mesmo o reconheço nesses termos. Apesar disso, a minha relação com ele ultrapassa qualquer bom senso. Se eu levasse a sério aquelas listas de melhores filmes, tão comuns neste mundo que a tudo quer quantificar e catalogar, Valentin estaria, sem dúvida, nas primeiras posições.
Se, em vez disso, me pedissem tão somente para explicar o motivo pelo qual eu não escrevo sobre este filme, eu arriscaria dizer, cheio de limites, que ele me retira o chão, sempre que o aprecio. E Bruce Baillie soube fazer isso da maneira mais cinematográfica de todas: é a câmera quem subtrai a minha presença do espaço-tempo vivido, conectando-me aos detalhes de um pequeno universo (pequeno, mas infinito), no qual a música e as imagens se completam de um modo tão singular que, mesmo se eu tivesse apenas os olhos, tomaria conhecimento daquela melodia.
Em Valentin de las Sierras não separo planos, cortes e enquadramentos: o que percebo são os pedaços fascinantes de uma realidade que pulsa sozinha, sem pressa, distante em estética e em espírito do dia-a-dia fastidioso das grandes cidades. São pedaços cuidadosamente talhados de uma forma de vida que brilha sem esforço, mesmo que a fotografia do filme enfatize as sombras, contornando a luz; recriando os próprios contornos. Dito de outro modo: são sombras que brilham – um paradoxo como o da máxima beleza que se eleva do mais simples cotidiano.
Mais não escrevo, pois me despiria em demasia. Sem vaidade, falar deste filme é ser desafiado a falar de mim mesmo, sobrepondo ao juízo um apreço muito grande – estranha identificação, dessas que só a arte e o inconsciente permitem.
É isso, Rodrigo: filme bom é aquele que permance anos e anos (ou para a eternidade) como indagação…
ps- submergir, submergir…
lisandro
11/07/2009 em 00:57