O kitsch por aí
No post anterior eu me referi a Caminho das Índias com o termo kitsch. Esse conceito é um dos mais interessantes da estética contemporânea. O texto da Profa. Christina Maria Pedrazza, apresentado na Intercom deste ano, oferece uma boa introdução:
Apesar de mais de um século de existência, a palavra kitsch ainda apresenta alguma confusão em seu significado, sendo muitas vezes interpretada como sinônimo de brega. Entende-se que uma coisa é brega quando está relacionada ao mau gosto. Este conceito não se estende necessariamente ao kitsch. Mesmo que muitos atribuam ao kitsch o conceito de mau gosto, nem sempre esse mau gosto é evidente aos olhos do consumidor ou do indivíduo que faz uso do kitsch, principalmente se o objeto for uma réplica do original. Um típico exemplo é uma reprodução de um pintor famoso vendida na loja de um museu ou mesmo em frente a ele. De certa forma, pode-se considerar um objeto kitsch se ele apresentar uma ou mais das seguintes características: 1) imitação (de uma obra de arte ou de um outro objeto); 2) exagero (na linguagem visual ou na linguagem verbal); 3) ocupação do espaço errado (um carrinho de pedreiro usado como jardineira em um canteiro de jardim); 4) perda da função original ( uma garrafa de vinho usada como castiçal).
Uma referência indispensável no assunto é o livro O Kitsch, de Abraham Moles.
Em todo caso, qualquer retrato de Carmen Miranda é bastante ilustrativo:
Mas o que motiva esse novo post, na verdade, é que o trecho de Claro, de Glauber Rocha, colado aqui no blog anteriormente, pode ser interpretado como uma ironia para com o enraizamento do kitsch na sociedade burguesa. Roma é a civilização na qual triunfou uma classe média possessiva e individualizada – pré-requisitos para os excessos, o “sempre mais”, a superlativa função do prazer e do conforto na arte (a despeito do “belo” e do “feio”) ou a inadequação dos objetos nos contextos em que são inseridos.
Lembrei-me também de um filme goiano – um dos melhores da produção recente. Em Descrição da Ilha da Saudade, a diretora Alyne Fratari põe uma galinha de porcelana sobre a geladeira vermelha, que, por sua vez, é objeto da intriga que determina a relação do jovem casal interpretado por Carlos Cipriano e Glauce Guima. Essa galinha é um detalhe que evidencia, no filme, a apropriação do kitsch numa chave crítica – a intenção, aqui, é ressaltar um estilo de vida que as personagens procuram realizar (o de uma sociedade de consumo), como um imperativo que concorre diretamente com a atração bela e pulsante dos dois amantes; o que termina sufocando a ambos.
Olha só a galinha, ali atrás:
O filme de Fratari será exibido na Mostra Brasil do Goiânia Mostra Curtas, mês que vem. A meu ver, ele deve ser assistido como uma referência para os cineastas daqui, pois consegue algo realmente raro de se ver no cinema goiano: um equilíbrio adequado entre os elementos fílmicos específicos, como o uso de trilha sonora ou a montagem coerente com a mise-en-scène, itens que geralmente condensam as intervenções excessivas dos nossos cineastas.

