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O caso de Roleta Russa

com 3 comentários

Nos arredores da 9ª Goiânia Mostra Curtas, poucas coisas me pareceram tão unânimes quanto a desaprovação ao filme Roleta Russa, exibido na Curta Mostra Goiás. Muito interessante notar essa reação. O filme é um suspense aos moldes hollywoodianos, com todas as deficiências que um projeto assim poderia ter, quando realizado longe de qualquer coisa parecida com uma indústria de cinema, como é o caso de Goiânia.

Junto com algumas poucas opiniões dissonantes, não penso que o filme seja completamente desprovido de virtudes. Se a produção de arte e a direção dos atores deixam a desejar, se há quebra de eixo por causa de uma decupagem que nem sempre posiciona a câmera adequadamente, não é menos verdade que o filme soube aproveitar bem a sonoridade do gênero (elemento tão importante para o “efeito de suspense”), e consegue prender a atenção do espectador, se este não impuser muitas “exigências” ao ter em mente um filme genuinamente hollywoodiano – exigências que, de fato, só seriam atendidas se a jovem equipe do filme tivesse mais grana e experiência, pela natureza do projeto que levaram a cabo.

Há ritmo narrativo em Roleta Russa. É importante ressaltar isso, porque a falta desse “ritmo” é o que mais caracteriza os filmes goianos que tentam, assim como ele, reproduzir as sensações do cinema hegemônico, seja pela via do suspense ou do melodrama (as duas chaves mais comuns). Lembrando de cabeça, pelo menos três ou quatro obras ficaram de fora da programação da Mostra Goiás por problemas nesse quesito: além de possuírem as deficiências que Roleta Russa possui, elas não conseguiram envolver o espectador, e passam muito longe de estabelecer com alguma competência a boa e velha impressão de realidade. Se há algo que poderia levar Hollywood à falência é essa falta de envolvimento do público com a narrativa, que, na maior parte das vezes, costuma tê-lo na mão. Daí a maior (e talvez única) virtude de Roleta Russa.

Dito isso, a reação negativa ao filme pode ser sintoma de várias coisas. Em primeiro lugar, sendo uma hipótese menos provável, o espectador estaria menos interessado no cinema hollywoodiano do que é costumeiro, e desaprova Roleta Russa porque a sua filiação a esse cinema já é reprovável de partida. Todavia, a meu ver, tal posição é defendida somente por algumas pessoas ligadas ao audiovisual (inclusive, é a minha opinião como espectador e crítico, deixando de lado a condição de curador da Mostra Goiás).

Uma segunda hipótese, mais plausível, é a de que o apreço do público médio que hoje acompanha e gosta de Hollywood é garantido tanto pela estrutura narrativa dos filmes quanto pelas propriedades específicas da imagem, ou seja, as soluções cada vez mais sofisticadas em efeitos especiais – tudo aquilo que começou com Spielberg e Lucas, e se tornou um dos grandes problemas para quem gostaria de ver, hoje, mais encenação e criatividade narrativa, como na Hollywood de outrora, e menos computação gráfica.

Faria sentido cobrar de um filme como Roleta Russa que houvesse sangue pelos ares quando a moça dá um tiro na própria cabeça? (Ver o finalzinho do trailer, acima.) Por um lado, cobrar isso é reclamar das referências do próprio filme: ele quer ser hollywoodiano, mas não consegue – logo, por que querer ser hollywoodiano? Por outro lado, essa mesma cobrança projeta sobre o filme alguns critérios de qualidade, geralmente pautados por um sentido de verossimilhança, que Hollywood propaga com excessiva ênfase atualmente, o que tende a impedir que identifiquemos, por trás de todas as óbvias deficiências de Roleta Russa, a característica que o faz ser melhor que os outros filmes goianos não classificados para a Mostra Curtas: desde o primeiro plano, ele convida o espectador para o jogo de tensão e expectativa em função de um deadline bem definido na trama, a despeito de ser pouco original. Os eventos se sucedem enquanto a nossa atenção, previamente avisada, espera ansiosamente suas resoluções – se o espectador topar entrar no jogo, é difícil que o filme não “funcione”.

Vale a nota de que transitam por aí diretores pretensamente “não hollywoodianos”, mas que, no entanto, são incapazes de estabelecer uma relação de empatia com qualquer espectador, justamente porque não afirmam com eficácia uma estrutura narrativa. Não defendo a ideia de que é preciso ser “clássico” para “aprender” a ser “moderno”, mas em Roleta Russa, por incrível que pareça, há sinais de uma consciência clara daquilo que é essencial para o filme que ele pretende ser – se é mal sucedido no fim das contas, é outra história, outro debate. É o mesmo caso do melodrama Nascida para o Céu, exibido também na Mostra Goiás. Os dois filmes estão longe de serem bons – e eu diria também que não concordo com os ideais cinematográficos de nenhum dos dois. Mas pelo menos é possível discordar deles, e apontar seus problemas. Isso nem sempre pode ser feito, diante de outros filmes goianos que não sabem dizer a que vieram, nem por qual caminho tentaram seguir.

Escrito por Rodrigo Cássio

09/10/2009 às 09:35

3 Respostas

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  1. nem vi.

    “Aos Pés” foi agradável.

    mas, se brincar, o “Baudelaire e os teus cabelos” foi o melhor. acho que porque gosto de serial killers.

    aroncoiote

    12/10/2009 em 11:35

  2. Aron,
    Também gostei de Aos Pés.
    Torci para o filme da Alyne. Uma pena ela não ter levado nenhum prêmio.
    Na Mostra Goiás, penso que o júri teve ótimas decisões.
    Abraços

    Rodrigo Cássio

    12/10/2009 em 11:45

  3. Olha, eu gostei desse trailer, deve ser legal o filme .
    Nunca entendi muito a moral da Roleta Russa, mas tudo bem …

    russianroulette

    07/11/2009 em 15:02


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