Com a palavra, Brakhage – a arte e a comunicação
No penúltimo post, falava do empenho comunicativo do cinema brasileiro. Os nossos cineastas buscam a legitimação social do “cinema incentivado” por meio de filmes que reproduzem uma linguagem cinematográfica adequada ao ideal de comunicação com um grande público.
Para continuar esse tema, o Stan Brakhage tem um depoimento absurdamente apropriado. Está no livro Vozes e Visões: panorama da arte e cultura norte-americanas hoje, uma coletânea de entrevistas por Rodrigo Garcia Lopes.
Como artista, não estou de modo algum envolvido com isso que se entende por “comunicação”. Não digo isso no sentido de “torre de marfim”, mas comunicação, no entendimento comum da palavra, como transferência de uma informação, não é bem o meu objetivo. As artes existem tradicionalmente por causa do mistério. Eu prefiro mostrar minha visão do que explicá-las. “Aperte o gatilho primeiro, faça perguntas depois”. Tanto no Ocidente quanto no Oriente as artes têm estado muito mais interessadas em inspirar e instigar as pessoas a viver, o que é bem diferente de influenciá-las. Para inspirá-las é preciso criar um ambiente onde cada pessoa seja respeitada como um indivíduo, em sua particularidade, e não como integrante de um rebanho. Embora eu considere que uma obra de arte deva ter vida na sociedade. Uma vez que o artista terminou de filmar, aquilo pertence aos outros. Nunca produzo um filme com a intenção de levá-lo à apreciação da sociedade. Qualquer cara que decida encontrar uma garota apenas para mostrá-la aos pais e amigos jamais se apaixonará por ela. Qualquer um que decida fazer um trabalho para o público jamais irá criar uma obra de arte. Uma obra de arte é feita pelo mais pessoal dos motivos: é uma expressão de amor.
A lucidez de Brakhage dispensa comentários.
Perfeito, realmente nada a acrescentar. :-)
Ricardo Cabral
22/10/2009 em 18:44
Ricardo: de fato, verdadeiros artistas costumam ser também bons pensadores da arte! Um abraço.
Rodrigo Cássio
22/10/2009 em 22:35